A convite de uma amiga argentina, fui ver o Carnaval portenho, que tenta, a duras penas, se restabelecer depois de ter sido interrompido há décadas. Sim, os moradores de Buenos Aires já tiveram sua própria folia. Mas o regime militar aboliu a festa do calendário na década de 70. Há poucos anos, a prefeitura trouxe de volta o feriado de dois dias (segunda e terça-feira, as repartições públicas estão fechadas). E a celebração ganhou novamente as ruas em 2006.

Não dá para dizer que é uma diversão. Apesar do feriado, o espírito de Carnaval não reconquistou os portenhos. Uma argentina que estava no meu grupo ficou enlouquecida quando, de volta para casa, mostrei um vídeo do Carnaval de Salvador deste ano. Mas ainda assim, há gente querendo retomar a folia argentina.

No trecho em que ficamos, na Avenida Corrientes, havia seguramente menos de 200 pessoas observando os desfiles. Alguns velhos dançando para relembrar o passado, e adolescentes fotografando e filmando a festa. Dezenas de pessoas usando roupas coloridas e pintura no rosto bailavam ao som de uma versão em espanhol de Karma Chameleon, um clássico dos festejos portenhos. Era uma murga, uma antiga manifestação cultural criada pelos negros do Rio da Prata, agora representada por argentinos brancos.

Um grupo de dançarinos bolivianos fazia esmeradas coreografias observados por quase ninguém. Pouco atrás, um jovem afroargentino empunhava sem sorrir o estandarte da Comparsa Negros Argentinos. Eram pouco mais de dez, na verdade, e incluíam índio e brancos. Uma dançarina era loira!

Ao final do desfile, uma mulher se aproximou de mim e me entregou um folheto da Asociacion Misibamba. Comunidad Afroargentina de Buenos Aires http://bakongocandombeafroargentino.blogspot.com

Minhas acompanhantes, brancas, não receberam folhetos. Conversei por alguns minutos com ela e com outro integrante do grupo. Um homem que na Bahia, na Argentina ou em qualquer outro lugar, seria considerado branco. Uma experiência interessante.

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