Engraxate em ação em Buenos Aires; Boa parte dos calçados que passam por suas mãos vem da China ou do Brasil

Engraxate portenho; boa parte dos calçados que passam por suas mãos vem da China ou do Brasil. Foto: Liz Nunes

No primeiro trimestre de 2009, a China superou o Brasil pela primeira vez como o principal vendedor de sapatos em terras argentinas. Do total de calçados importados pela terceira maior economia latino-americana entre janeiro e fevereiro deste ano, mais de 46% saíram da potência asiática, enquanto a indústria brasileira forneceu pouco mais de 34% deste montante. Mas isso é apenas uma pequena mostra da presença sino-brasileira no país.

Os argentinos são bombardeados, dos pés à cabeça, por propaganda de serviços e manufaturas que saem diretamente dos dois gigantes emergentes. As etiquetas “indústria brasileira e “made in China” estão por todas as partes e, junto com os valores econômicos, trazem uma velada disputa das duas nações pelos corações argentinos. Uma amiga portenha me disse esta semana, em tom jocoso, que, entre o “Pan Brasil” e a “ArgenChina”, ela opta pelo primeiro, caso o seu país tenha que se incorporar a uma potência estrangeira. O seu argumento é que pelo menos a música brasileira é melhor.

Aliás, quem entra em supermercado chinês de Buenos Aires pode até ter a impressão de que os asiáticos estão querendo vender também o cancioneiro de sua região. É comum ter a música a toda altura em alguns estabelecimentos, ainda que nenhum portenho consiga entender uma frase. O que os locais entendem direitinho é que os chineses costumam oferecer produtos e serviços com preços muito mais baixos do que a concorrência, seja na lavanderia, seja no mercado, seja em produtos piratas comercializados nos trens e metrôs, também com o volume nas alturas. O barulho pode vir do aparelho de som, para mostrar um CD com clássicos da década de 80, ou dos berros do vendedor, para convencer de que em nenhum outro lugar se vai conseguir uma caixa de ferramentas por 10 pesos. Mesmo preço do litro de Heineken em um restaurante do Bairro Chino, em Belgrano. Em qualquer lugar mais ou menos, esse mesmo litro não sai por menos de 2o pesos.

Mas a invasão brasileira é mais divertida. Embora alguns comerciantes argentinos reclamem do nosso tom de voz elevado (mesmo que eles mesmos façam bastante barulho), a presença verde e amarela por aqui costuma ser saudada com entusiasmo. Itaú, Sadia, Havaianas e outras marcas nacionais parece que se beneficiam da boa vontade argentina para com o vizinho que agora é visto como um modelo de sucesso, com o que eles gostariam que fosse a Argentina. E esse aval permite até que um supermercado venda o quilo de um tipo de limão por quatro vezes mais do que outro, somente pelo fato de ser o limão com que se faz caipirinha. Isso até que algum chinês descubra como vender a caipirinha pronta pela metade do preço.

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