Segurança


argentina - mai09 375

Arquitetura moderna de Buenos Aires


Foto: Liz Nunes

A greve dos metroviários e os minutos a mais que gastei na cama me levaram a pegar um táxi e evitar um atraso maior, já que eu não sabia exatamente que ônibus seria o melhor para ir ao trabalho. O taxista, um homem de quase 60 anos, responde à minha saudação e, assim que falo o destino, concentra-se na direção. Dois minutos depois, me pergunta se sou brasileiro.
Confirmo minha nacionalidade e me animo a perguntar como ele sabia de onde eu era. Depois de uma risada irônica, ele me diz que foi pelo sotaque. Eu respondo que evidentemente não sou argentino, mas que poderia ser de algum outro país das Américas ou da África e, como argumento, mostro que estou com a camisa da seleção de Camarões.
Pouco depois ficou claro porque, naquele momento, era relevante mencionar o Brasil. Ele havia lido no Clarín uma matéria sobre um escritor brasileiro com piadas sobre argentinos. E claro que não gostou nada. Tentei amenizar, dizendo que historicamente há uma grande rivalidade entre os países, mas que as coisas estão diferentes. Então ele começou a falar mal da Argentina, especialmente por causa do aumento da criminalidade no país.
Aos poucos, as coisas foram saindo. Depois de defender a redução da menoridade penal, o taxista foi se empolgando com a conversa até dizer explicitamente que sentia falta dos militares e que, para ele, a democracia não tinha sentido, já que os indicadores sociais e econômicos tinham piorado desde que ps civis voltaram ao poder. Para o motorista, a Argentina estaria livre do narcotráfico, dos assaltos violentos e de outras chagas se o país fosse governado por militares honestos. Um discurso que se sempre vem à tona quando acontece um crime violento, como o assalto ao ex-jogador Cáceres, que foi gravemente baleado por menores que queriam roubar o seu automóvel.
Os argentinos estão notoriamente divididos. De um lado, a parte que sofreu com a violência do regime militar, que matou e torturou milhares de cidadãos, deixou uma legião de desaparecidos, além de crianças que foram raptadas pelo governo e entregues a outras famílias, o que gerou o movimento das Abuelas de la Plaza de Mayo, que até hoje lutam para reencontrar parentes que sumiram durante a ditadura. Como um jovem de 29 anos que recentemente reencontrou irmãos e avós, com os quais perdeu contato desde que seus pais foram mortos pelos militares. Essas pessoas não querem nem ouvir falar de uniformes e algumas ainda sentem calafrios quando ouvem o barulho de aviões fazendo acrobacias.
A outra parte não se importa muito com isso. Para esses argentinos, o que vale é ter progresso econômico, ordem social e a sensação de que quem trabalhar vai ter o suficiente para sustentar a família e de que não será atacado por um assaltante armado ao chegar em casa. O taxista que me levou ao trabalho nesse dia estava no segundo grupo.

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Eu estava ponderando outro dia como a sensação de insegurança pode ter aumentado tanto entre os portenhos em um espaço de seis anos, tempo que separa as minhas duas viagens a Buenos Aires. Uma amiga argentina considera que o ponto-chave para a mudança foi o assassinato de um jovem de um bairro elegante da capital durante um assalto, em 2004. Desde então, acredita minha amiga, a classe média (e Buenos Aires é uma cidade de classe média) anda assustada.
De fato, o noticiário está cada vez mais recheado de crimes violentos que, em primeiro lugar, acontecem com mais frequencia, e, em segundo lugar, são noticiados à exaustão. Hoje, o Clarín publicou uma pesquisa do Instituto Gallup que mostra o impacto da violência sobre a população. 57% dos argentinos consultados declararam que moram uma área insegura. E que a criminalidade aumentou bastante ao longo dos últimos 12 meses. Aliás, a presidente Cristina Kirchner, e o seu correligionário Daniel Scioli, governador da Província de Buenos Aires, têm na segurança um de seus pontos mais fracos na avaliação dos eleitore

Uma rápida visita ao mercadinho do bairro é suficiente para entender como a segurança se tornou, em poucos anos, o principal assunto para os argentinos. O comentário do dia entre funcionários e clientes do estabelecimento, na pacata Castelar, é o assassinato de um homem de 54 anos por um garoto de 14, que tentava roubar seu carro, na localidade de Lanús, Grande Buenos Aires.
O menor descarregou o revólver no corpo da vítima, que havia resistido. Os vizinhos ficaram revoltados com o assassinato e acabaram insultando e agredindo o policial que esteve no local do crime. Com os ânimos exaltados, as pessoas cobravam mais segurança e o fim de execuções com a de ontem à noite, quando o agente da lei perguntou o que ele poderia fazer? Foi o suficiente para que algumas pessoas avançassem sobre ele. O filho da vítima declarou aos jornais que não concordou com a agressão, pois o policial esteve no local e mostrou a sua cara. Mas o rapaz demonstrou inconformidade com o que considera superproteção a menores que cometem homicídios e disse que quem deve ser cobrado são as autoridades como a presidente Cristina Kirchner e o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, que é aliado do oficialismo e vai concorrer às eleições legislativas no próximo dia 28 de junho. É uma candidatura fantasma. Eleito, Scioli renuncia ao cargo de deputado e se mantém à frente da Província, usando sua popularidade para empossar o seu suplente na chapa.
A questão é que crimes como o de ontem à noite, ocorrido sob a jurisdição de Scioli, vão ser usados como bandeira pela oposição. De alguma maneira, o pleito vai avaliar o quanto, de fato, a segurança pesa para o eleitorado argentino.