Bairros


Vila residencial no Bairro Chino, em Belgrano

Vila residencial no Bairro Chino, em Belgrano

Ao me explicar porque não gostava de morar em Belgrano, uma amiga portenha disse que o bairro tinha estava distante demais para chegar ao centro da cidade e, ao mesmo tempo, demasiadamente perto do estresse de Buenos Aires. De fato, esse bairro com mais de 160 mil habitantes é cortado por algumas das mais movimentadas avenidas da capital, a despeito de estar muito próximo do limite da província.

Na verdade, Belgrano foi fundado em 1857 como um município da Grande Buenos Aires, batizado em homenagem a Manuel Belgrano, morto 37 anos antes. Vizinho de Palermo, o local tem entre as suas principais atrações o chamado Bairro Chino, que concentra um sem número de restaurantes, supermercados e centros culturais mantidos por imigrantes chineses.

Outros pontos de interesse são o magnífico Museu de Arte Espanhol Enrique Larreta, que além do prédio e do acervo conta com um jardim fenomenal, a Igreja da Imaculada Conceição, datada de 1878, e conhecida como Igreja Redonda e o Museu Histórico Sarmiento, a antiga sede da municipalidade que abrigou provisoriamente o parlamento nacional durante o levante promovido por Carlos Tejedor, político que foi ministro das Relações Exteriores de Domingo Faustino Sarmiento e que era um defensor intransigente do status privilegiado de cidade autônoma para Buenos Aires.

Anúncios

O Clarín publicou neste domingo uma pesquisa que apontou o bucólico bairro de Colegiales, na zona norte da cidade, como o melhor lugar para se viver em Buenos Aires. O trabalho foi desenvolvido por um grupo de economistas que, mais do que as aprazíveis casas e a quantidade de árvores, levou em conta quanto um morador ganha com a disponibilidade de serviços, acesso a transporte público e a distância para as estações de metrô (o Subte) e de trens.

Colegiales foi o que obteve pontuação mais alta, deixando para trás bairros vizinhos mais badalados, como Belgrano, que abriga o chamado Bairro Chino, e Palermo, nome que vale ouro para o mercado imobiliário portenho. A localização de um apartamento, edifício comercial ou casa em Palermo faz com que o preço suba consideravelmente em relação a um imóvel nas mesmas condições, em outro bairro da cidade.

Por conta disso, aliás, Palermo vai lentamente “engolindo” os bairros vizinhos. Há poucos anos, um trecho de Villa Crespo entre as avenidas Corrientes e Córdoba passou a ser conhecido como Palermo Queens, uma variação a mais, depois de Palermo Soho e Palermo Hollywood. Em uma conversa recente, um amigo portenho morador de Colegiales brincou que via a hora em que seu bairro seria transformado em Palermo High School. Embora haja uma limitação quanto à altura, pelo menos 20 prédios foram construídos recentemente no bairro, segundo o Clarín.

Há algumas coisas em comum entre o bairro de San Telmo e o Centro Histórico de Salvador. Ambos abrigaram inicialmente as elites locais, depois de abandonados pelos ricos foram habitados por famílias de baixa renda, passaram por períodos de decadência, e se transformaram em centro de atração turística.
Agora, o diferencial. O imenso casario que se espalha por dezenas de avenidas desse incrível bairro portenho abre espaço para as mais variadas utilizações: pousadas, restaurantes, lojas, bares e cafés para quem está de visita, mas também mercados, padarias e lavanderias para os milhares de argentinos e estrangeiros que moram em San Telmo. Ou seja, o bairro está vivo praticamente 24 horas por dia.
Se no século XIX a elite portenha se afastou do bairro, por causa da epidemia de febre amarela que matou mais de 14 mil portenhos em 1870, nas últimas décadas parte da classe média e da dos ricos se mantem afastada do local principalmente pela sensação de insegurança. Mas quem se manteve na área fez um excelente negócio. Com a presença cada vez maior de estrangeiros alugando ou comprando casas, os imóveis de San Telmo tiveram uma valorização extraordinária. Eu conheço uma portenha que comprou uma casa no bairro há dez anos e viu o valor da sua propriedada atingir mais de cinco vezes o que ela desembolsou na compra.
Os principais inconvenientes de San Telmo são o intenso trânsito nas vias principais e a consequente poluição, durante o horário comercial. Mas fora isso o bairro é um oásis de tranquilidade na agitação do centro portenho. Dá para sentar em um banco na calçada e ver a vida passar, levar três horas em um café tomando um expresso e relaxar à vontade. E à noite rola de tudo. Lugares para dançar, ouvir bandas de rock locais, peças de teatro ou os tradicionais shows de tango.

Prédio reformado em Puerto Madero

Em 15 de novembro de 1989, o governo argentino, sob o comando de Carlos Menem, passava às mãos da prefeitura de Buenos Aires 170 hectares de terras que pertenciam à União, na área do antigo porto, uma região que ficou abandonada durante décadas, desde 1925, quando entrou em operação o Porto de Buenos Aires.
O convênio assinado entre o Governo Menem e a prefeitura fez surgir o badalado bairro de Puerto Madero, que concentra condomínios de luxo protegidos por guaritas, câmaras de vigilância que funcionam 24 horas, uma centena de restaurantes e uma extensa e cara rede de serviços.
Alguns poucos prédios antigos das docas foram reformados e mantiveram em suas fachadas os tijolinhos, agora polidos. Mas a maior parte do bairro segue uma arquitetura mais modernosa, com vidros espelhados e um estilo que tornou Puerto Madero uma espécie de pequena Miami, dentro de uma cidade erguida em uma estética europeia.
O bairro, que foi batizado em homenagem ao engenheiro Eduardo Madero, que projetou o primeiro porto da cidade, hoje serve de modelo para outros prefeitos mundo afora, quando falam em revitalização da zona portuária.

Com mais de 250 mil moradores, Palermo é uma síntese da opulência local. O bairro se divide em pequenas regiões, Palermo Chico (pequeno), Palermo Viejo (velho), Palermo Soho, Las Cañitas e Palermo Hollywood. Por aí mora e se diverte boa parte dos portenhos de classe média alta e também os ricos. O ator Ricardo Darín (O Filho da Noiva, As Nove Rainhas) tem uma casa no bairro e o cineasta Francis Ford Coppola mantém um escritório nessa vizinhança.

Bares da moda, produtoras de TV e cinema e restaurantes finos dividem espaço com importantes espaços culturais, como o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, o Malba, onde está o quadro Abapuru, da brasileira Tarsila do Amaral.

E boa parte das embaixadas está em Palermo Chico. Mesmo países paupérrimos como o Haiti mantém ali a sua representação diplomática, uma das zonas mais caras da América Latina. Eu brinquei com uma amiga portenha, dizendo que se o governo daquele país pagar os custos do imóvel com preço de mercado deve deixar quase metade do PIB do Haiti para manter sua casa em Buenos Aires.

Fachada do imóvel ocupado pela representação diplomática do Haiti, um dos países mais pobres do mundo, em um dos bairros mais caros de Buenos Aires

Fachada do imóvel ocupado pela representação diplomática do Haiti, um dos países mais pobres do mundo, em um dos bairros mais caros de Buenos Aires

Alugar um quarto ou apartamento em Buenos Aires é quase como uma operação de guerra, especialmente no mês de março, quando começam as aulas e há um exército de estudantes estrangeiros em busca de alojamento. Nos vários sites dedicados ao tema, as ofertas razoáveis costumam estar disponíveis  apenas poucos minutos depois de publicadas. E tem gente conseguindo alugar um quarto e sala por até mil dólares. Também pudera, com essa demanda…todo mundo quer vir para a cidade. Conheci um estadunidense que estava se matriculando em uma universidade e perguntei  o que ele ia estudar. “Não sei, qualquer coisa”, disse o gringo. Ah, aqui gringos são apenas os que vem dos Estados Unidos.

A dificuldade para encontrar um lar na Argentina é tema recorrente na fila do caixa eletrônico da agência do Banco do Brasil. Um paulista
me recomendou que eu alugasse qualquer coisa por agora e esperasse até maio, quando o mercado imobiliário fica mais quieto. De fato, estive a ponto de alugar um quarto a 10 minutos, de ônibus, da universidade. A jovem proprietária do imóvel foi bastante simpática, mas desisti porque teria que conviver com um dobermann e com a mãe da garota, que visivelmente não fazia questão de ter um hóspede. Ambos eram assustadores. Resolvi esperar por outros anúncios.

Um amigo me contou em que os homens do bairro portenho de Once, onde estou hospedado, costumam se referir ao local como Eleven Park, quando se apresentam a uma garota. É uma forma de emprestar mais charme ao local, considerado um dos menos atraentes da Capital Federal. Ainda assim, o bairro pode chegar a ser encantador para quem vive em uma cidade brasileira.

As calçadas são de provocar muita inveja aos soteropolitanos, por exemplo. caminhar é uma tarefa além de fácil, agradável. Centenas de pequenos comércios fazem com que se possa encontrar de tudo caminhando, sem grandes obstáculos. As ruas são bastante escuras à noite, mas a primeira volta não chegou a produzir medo. Apesar do aumento da criminalidade, as pessoas ainda não estão atemorizadas.

Once é uma babel, tem uma considerável comunidade judia, chineses, bolivianos e senegaleses, uma mistura que talvez não agradasse Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), ex-presidente argentino, cuja data da morte, 11 de setembro, deu origem ao nome do bairro. Sarmiento, que é considerado um dos grandes presidentes argentinos, foi um profundo incentivador da imigração europeia e tinha o desejo de que a Argentina se consolidasse como uma nação branca.