Após a goleada de 7×1 aplicada pela Alemanha sobre o Brasil nas semifinais da Copa de 2014, e da posterior classificação da Argentina para a Final, duas amigas, uma alemã e uma argentina, ambas residentes no Brasil, tentaram conquistar a minha simpatia para os seus países. A alemã, que se mostrou verdadeiramente envergonhada após a marcação do quinto gol, evitou comemorações efusivas em respeito aos brasileiros que a acompanhavam. E depois indagou se o resultado poderia levar a hostilidade por parte da torcida brasileira ao time alemão, que desde o início da Copa se esmera em conquistar os corações verde e amarelos, com os jogadores vestindo camisas de clubes locais, divertindo-se na praia e até postando mensagens em português nas redes sociais.
Não ficou claro se era uma provocação ou um argumento efetivo, mas em sua tentativa de arregimentar fãs brasileiros, a amiga argentina, que tinha acabado de postar em sua página no Facebook a frase “Brasil decime que se siente” para comemorar a sua vitória, e depois de passar três semanas curtindo a rivalidade com o país onde mora, argumentou que o Brasil não poderia apoiar uma seleção que os havia humilhado. Argumentei que não houve uma intenção de desrespeitar, que eles apenas venceram por goleada, e que isso era muito menos desrespeitoso do que cantar uma música em que se provocava os anfitriões. E também havia o argumento ad hoc de que o título deveria ficar no continente e que o Brasil não deveria apoiar os gringos. Confesso que tive dificuldades em entender a lógica argentina.
Até que a conversa me remeteu, outra vez, à experiência de estar em Buenos Aires durante o mundial de 2010. Os dois gigantes da América do Sul enfrentaram, nas quartas de final, esses mesmos europeus, mas em confrontos invertidos. A Holanda eliminou os brasileiros, para delírio dos argentinos, então despidos de qualquer sentimento de unidade sulamericana, pelo menos no futebol. No dia seguinte, a Alemanha sapecou 4×0 na Argentina, que não digeriu a derrota. Embora argentinos de origem alemã admitissem seguir torcendo pelo algoz da sua seleção.
No primeiro dia útil após a goleada sofrida pela argentina, um dos professores de um curso que eu frequentava protagonizou um diálogo com um aluno alemão que me deixou desconcertado. “Tente não sorrir muito durante a aula, para que eu não tenha que te reprovar”. Não sei se foi uma brincadeira, mas pensei que aquela era uma frase que jamais deveria ser proferida por uma autoridade. Mas que agora no contexto Copa 2014 faz todo o sentido.

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